{"id":937,"date":"2026-10-12T23:55:45","date_gmt":"2026-10-12T23:55:45","guid":{"rendered":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/?p=937"},"modified":"2026-10-12T23:55:45","modified_gmt":"2026-10-12T23:55:45","slug":"juiza-baiana-passou-fome-na-infancia-e-teve-que-dividir-sapato-com-irma-conheca-a-trajetoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/?p=937","title":{"rendered":"Ju\u00edza baiana supera fome, trabalho infantil e posse no Acre"},"content":{"rendered":"<p>A trajet\u00f3ria at\u00e9 a aprova\u00e7\u00e3o em um concurso para a magistratura exige dedica\u00e7\u00e3o extrema, mas a hist\u00f3ria de Rosilene Santana vai muito al\u00e9m dos livros de direito. Nascida em uma comunidade rural na Bahia, ela precisou enfrentar a fome, o trabalho infantil e a escassez de recursos b\u00e1sicos antes de assumir o cargo no Tribunal de Justi\u00e7a do Acre (TJ-AC) em 2023.<\/p>\n<h2>Origens humildes e o in\u00edcio precoce no campo<\/h2>\n<p>Natural de Paje\u00fa, povoado situado na zona rural de Oliveira dos Brejinhos, no oeste baiano, Rosilene veio ao mundo em um parto domiciliar conduzido por uma parteira. Filha de agricultores e segunda de um total de sete irm\u00e3os, cresceu em um ambiente desprovido de saneamento b\u00e1sico e eletricidade, cuja sobreviv\u00eancia dependia estritamente da agricultura familiar.<\/p>\n<p>Aos 6 anos de idade, a rotina j\u00e1 era de trabalho pesado ao lado de uma das irm\u00e3s, auxiliando o pai nas atividades agr\u00edcolas locais. &#8220;Come\u00e7amos a trabalhar muito pequenas, puxando boi e cavalo para arar a terra, porque n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de usar trator. Meu pai vinha atr\u00e1s empurrando o arado e a gente ia na frente conduzindo os animais&#8221;, relembrou em entrevista ao g1.<\/p>\n<h2>A inf\u00e2ncia marcada pela escassez e o apelido prof\u00e9tico<\/h2>\n<p>Apesar das jornadas exaustivas sob o sol forte, a menina cultivava o h\u00e1bito de mediar os conflitos familiares. Esse comportamento rendeu-lhe o apelido afetuoso que moldaria seu futuro. &#8221;Eu sempre tive um senso de querer saber quem estava certo, quem estava errado nas coisas. E eu me lembro que, ainda muito pequena, os meus pais come\u00e7aram a dizer que eu era a ju\u00edza da casa, que eu me comportava como se fosse uma ju\u00edza. E eu, com aquela idade, n\u00e3o tinha a menor ideia do que era ser ju\u00edza, mas eles repetiam tanto aquilo que me fizeram colocar a ideia na cabe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o foi igualmente turbulento. Devido \u00e0 aus\u00eancia de docentes na regi\u00e3o, ficou um ano sem frequentar a escola. Aos 9 anos, mudou-se para a \u00e1rea urbana do munic\u00edpio junto com a irm\u00e3 para dar continuidade aos estudos. Ap\u00f3s residir brevemente com uma tia, as duas passaram a morar sozinhas aos 10 e 11 anos em uma cozinha cedida, dormindo juntas em um \u00fanico colch\u00e3o no ch\u00e3o e recorrendo por vezes a restos de ossos de a\u00e7ougue para amenizar a fome.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o financeira melhorou ligeiramente quando come\u00e7aram a trabalhar como bab\u00e1s, recebendo pequenos valores. Com a exig\u00eancia de uniforme escolar completo, o pai s\u00f3 conseguiu adquirir um \u00fanico par de cal\u00e7ados, obrigando as irm\u00e3s a se revezarem no uso do sapato para conseguir frequentar as aulas em turnos distintos.<\/p>\n<h2>Mudan\u00e7a para o Esp\u00edrito Santo e a busca por qualifica\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Posteriormente, as irm\u00e3s transferiram-se para Colatina (ES). Diante da perda do prazo de matr\u00edcula regular, Rosilene concluiu o ensino m\u00e9dio em apenas tr\u00eas meses por meio de supletivo, percorrendo diariamente sete quil\u00f4metros a p\u00e9 at\u00e9 a institui\u00e7\u00e3o de ensino. Ap\u00f3s trabalhar como empregada dom\u00e9stica e precisar abandonar a ocupa\u00e7\u00e3o para priorizar os estudos, ela percebeu a necessidade de obter uma profiss\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>&#8221;Naquele momento, eu pensei: bom, eu acho que eu preciso dar um passo atr\u00e1s, eu preciso ter uma profiss\u00e3o para eu conseguir um trabalho que vai me dar a condi\u00e7\u00e3o de pagar minha faculdade, porque j\u00e1 era o final de 2004, eu tinha terminado o ensino m\u00e9dio e n\u00e3o conseguia nada. Falei: &#8216;eu preciso ter uma profiss\u00e3o'&#8221;.<\/p>\n<p>Ela ingressou no Cefet \u2014 atual Ifes \u2014 no curso de Edifica\u00e7\u00f5es ap\u00f3s pagar aulas particulares com metade de seu sal\u00e1rio. Formada, foi contratada por uma mineradora com remunera\u00e7\u00e3o de R$ 750 e, em seguida, obteve uma bolsa de 50% para cursar a sonhada faculdade de direito, conciliando a jornada de trabalho integral com as aulas noturnas.<\/p>\n<h2>Supera\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e a prepara\u00e7\u00e3o para a magistratura<\/h2>\n<p>A dedica\u00e7\u00e3o aos estudos era rigorosa para compensar as defasagens da forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. &#8220;Tendo plena consci\u00eancia da minha defici\u00eancia do ensino fundamental e m\u00e9dio, eu sabia que estava muito atr\u00e1s dos colegas, ent\u00e3o chegava da faculdade, estudava, refor\u00e7ava o conte\u00fado. Eu coloquei para mim uma meta de estudar at\u00e9 1 hora da manh\u00e3&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda no nono semestre da gradua\u00e7\u00e3o, foi aprovada de primeira no exame da OAB. Mais tarde, ingressou na Escola da Magistratura em Vit\u00f3ria e dedicou cinco anos a uma intensa rotina de concursos p\u00fablicos, prestando mais de 14 sele\u00e7\u00f5es para o cargo de ju\u00edza. O per\u00edodo foi marcado pelo falecimento da m\u00e3e em 2018, v\u00edtima de um aneurisma, epis\u00f3dio que a magistrada relembra com profunda dor por n\u00e3o ter conseguido se despedir a tempo.<\/p>\n<p>&#8220;Foi muito dif\u00edcil porque eu fiquei me culpando, n\u00e3o pelo que aconteceu com ela, mas por n\u00e3o ter estado l\u00e1. Era como se eu estivesse colocando o meu desejo \u00e0 frente de qualquer coisa&#8221;, desabafou.<\/p>\n<h2>Aprova\u00e7\u00e3o e reflex\u00f5es sobre os desafios femininos<\/h2>\n<p>Mesmo diante das incertezas geradas pela pandemia de Covid-19 em 2020, Rosilene seguiu focada at\u00e9 obter a aprova\u00e7\u00e3o na prova oral do concurso do Tribunal de Justi\u00e7a do Acre, culminando na posse realizada em 8 de dezembro de 2023.<\/p>\n<p>Hoje, a ju\u00edza tamb\u00e9m pontua os obst\u00e1culos adicionais enfrentados pelas mulheres na prepara\u00e7\u00e3o para concursos e na concilia\u00e7\u00e3o com a maternidade. &#8220;Para a mulher, \u00e9 muito mais dif\u00edcil por v\u00e1rios fatores, a come\u00e7ar pela quest\u00e3o da fertilidade. Se voc\u00ea quer ser m\u00e3e, precisa escolher o que vai priorizar: a carreira ou o sonho de ter filhos, correndo o risco de n\u00e3o conseguir depois. A maioria das pessoas que estudam para concurso n\u00e3o tem R$ 30 mil ou R$ 35 mil para fazer congelamento de \u00f3vulos ou reprodu\u00e7\u00e3o assistida. Voc\u00ea vai na sorte&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, destacou a disparidade de g\u00eanero na rotina de estudos. &#8221;Os colegas homens estudam com suas fam\u00edlias formadas, com filhos pequenos. Por qu\u00ea? Porque quem ficava com a crian\u00e7a para viajar, para fazer prova, n\u00e3o era ele. N\u00e3o era ele que tinha que viajar com a crian\u00e7a, n\u00e9? N\u00e3o era ele que tinha que estudar com a crian\u00e7a no colo, amamentando, tendo que parar para amamentar, trocar&#8230; era a m\u00e3e&#8221;.<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s alcan\u00e7ar o cargo almejado desde a inf\u00e2ncia, a magistrada continua investindo na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e atualmente cursa mestrado em Bras\u00edlia, reafirmando o impacto transformador da educa\u00e7\u00e3o. &#8220;Hoje a juventude est\u00e1 muito empolgada com redes sociais, vendo pessoas viralizarem e ficarem ricas com um &#8216;v\u00eddeozinho&#8217;. Gente, isso \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. Pode n\u00e3o parecer, mas isso \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o, por mais dif\u00edcil que seja o caminho, ainda \u00e9 a maneira mais vi\u00e1vel e palp\u00e1vel de modificar nossa realidade&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a a inspiradora trajet\u00f3ria de Rosilene Santana, magistrada que venceu a extrema pobreza na zona rural da Bahia<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":945,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"class_list":["post-937","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bahia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=937"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/937\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":946,"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/937\/revisions\/946"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/945"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistafeiraeventos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}