Home / Notícias / Feira de Santana e o fenômeno dos dublês de rico e bilionários

Feira de Santana e o fenômeno dos dublês de rico e bilionários

A Feira dos dublês de rico e dos ricos de verdade

A figura do dublê no cinema assume os riscos de cenas perigosas enquanto a estrela principal fica com os holofotes. Na cidade de Feira de Santana, essa dinâmica inspirou o termo “dublês de rico”, usado para definir pessoas que ostentam carros de luxo e viagens caras, mas que frequentemente acumulam dívidas, crimes ou esquemas de corrupção.

Antropologia da ostentação no Brasil O antropólogo Roberto DaMatta já apontava que o brasileiro busca ser invejado para exibir sucesso, poder ou inteligência. Em 2026, esse comportamento ganhou destaque nacional com figuras como Daniel Vorcaro, que movimentou os bastidores do poder com festas e favores milionários.

A cultura contemporânea empurra a sociedade para essa vitrine. Músicas de gêneros como funk, trap e agronejo exaltam marcas de alto padrão como Rolex e Dodge Ram. Em contraponto, o artista baiano Igor Kannário resume essa dinâmica em versos diretos:

Você ostenta o que não tem pra tentar parecer mais feliz, mas não sabe que pra ser alguém tem que agir ao contrário do que você diz. Você pensa que tem liberdade exibindo riqueza e poder, mas não vê que na realidade o sistema é que lucra usando você. Desostenta, Igor Kannário

A concentração de riqueza revelada pelo Fisco Apesar da fama de comércio popular, os dados da Receita Federal mostram que os ricos existem em Feira de Santana, embora concentrados em uma parcela mínima da população. Dos cerca de 616 mil habitantes, apenas 549 pessoas declararam rendimentos superiores a R$ 1,2 milhão por ano.

Esse grupo seleto possui uma renda média de R$ 3900000 por ano e um patrimônio médio de R$ 12500000. O levantamento demonstra que a elite local não vive de salários tradicionais, mas sim de lucros, dividendos e aplicações financeiras isentas, pagando proporcionalmente menos impostos que a classe média assalariada.

O individualismo e os novos desafios sociais O incentivo ao empreendedorismo individual e às redes sociais mascara novas formas de precarização trabalhista. A pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado analisa essa realidade contemporânea:

“Pessoas alcançaram alguma mobilidade social e ampliaram a sua capacidade de sonhar, seja conquistando bens, seja vendo pessoas próximas conquistá-los, mas permaneceram presas a novas formas de precarização, como o trabalho plataformizado em aplicativos e redes sociais. Soma-se a isso o incentivo em massa ao empreendedorismo como saída individual para uma crise marcada pela redução das proteções sociais e trabalhistas.”

Enquanto sindicatos e associações perderam espaço ou viraram estruturas burocráticas e oportunistas — verdadeiros dublês de coletividade —, o desafio atual exige a reconstrução de laços comunitários. Sem essa articulação coletiva nas periferias e centros urbanos, a saída individualista continuará parecendo a única alternativa para a sociedade.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *