Um dos maiores clássicos da axé music, a faixa “Milla” protagonizou uma intensa disputa judicial em 2021 após ser executada em um ato político a favor do ex-presidente Jair Bolsonaro. A canção, eternizada na voz de Netinho — que faleceu na terça-feira (13) em decorrência de um câncer no sistema linfático —, acabou nos tribunais devido ao uso não autorizado em meio a manifestações.
A origem do sucesso na Ilha de Itaparica
Escrita por Manno Góes e lançada em 1996, a composição nasceu de um romance de verão vivido pelo autor durante suas férias na Ilha de Itaparica, localidade mencionada na letra como a “ilha do sol”. A música impulsionou a carreira solo de Netinho de forma estrondosa, transformando-se em um fenômeno que ultrapassou as fronteiras nacionais e levou o artista a realizar shows em países como Itália e Chile. Por cerca de 25 anos, o hit integrou a trilha sonora de carnavais e micaretas por todo o Brasil sem maiores controvérsias.
A polêmica na Avenida Paulista e a ação judicial
O cenário mudou em 2021, quando a então deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) gravou Netinho interpretando a faixa na Avenida Paulista, em São Paulo, durante um protesto pró-Bolsonaro que contou com aglomerações e pedidos de intervenção militar. Incomodado com a associação de sua obra ao evento, Manno Góes manifestou-se publicamente nas redes sociais: “Netinho ontem cantou Milla no ato em que pessoas brancas, na Paulista, gritavam ‘eu autorizo’, para Bolsonaro. Autorizam o quê? Golpe militar? Portanto, eu não autorizo esse débil mental de cantar minha música”.
Diante da situação, o compositor enviou uma notificação extrajudicial exigindo que a parlamentar removesse o conteúdo das redes sociais. Sobre a medida, o autor declarou: “Eu não posso proibir ninguém de cantar uma música minha. O que o autor tem direito é de impedir de que essa música esteja vinculada com uma forma de divulgação que ele não concorde”.
Indenizações e decisão liminar da Justiça
Como o registro não foi excluído, Manno Góes ingressou com um pedido de reparação que incluía:
– R$ 100 mil por danos materiais referentes ao uso comercial da obra sem o licenciamento prévio do titular.
– R$ 100 mil por danos morais pela associação compulsória de sua criação à linha ideológica da ré sem consentimento.
Cerca de dez dias depois, o juiz Érico Rodrigues Vieira, titular da 3ª Vara Cível de Salvador (BA), deferiu uma medida liminar impondo uma multa diária de R$ 5 mil caso Carla Zambelli mantivesse a publicação ativa. O magistrado fundamentou que o criador “não autorizou seu uso, posto divergir dos ideais políticos da usuária ré, sobretudo, da mensagem veiculada que faz uso indevido da canção pertencente àquele”. A postagem foi removida no dia seguinte à determinação judicial.
Novos atritos políticos e despedida
Os desentendimentos entre compositor e intérprete ganharam novos desdobramentos em 2023, quando Manno Góes rotulou Netinho de “criminoso” na internet após o cantor manifestar apoio aos atos de vandalismo ocorridos em Brasília no dia 8 de janeiro. Na ocasião, o músico alinhado ao bolsonarismo havia convocado seguidores a participarem do que denominou de “insurreição”. “Isso é crime! Netinho passou há muito tempo da fase de infeliz para a de criminoso”, rebateu o compositor.
Após o falecimento do artista, diversas personalidades do meio artístico prestaram homenagens, incluindo o próprio Manno Góes, que compartilhou uma nota oficial da Banda Jammil. No comunicado, o grupo expressou solidariedade aos admiradores e enfatizou que a contribuição do cantor para a história da música baiana é um legado “inegável na história da música baiana”.









