A trajetória de Ernestina Carneiro, amplamente conhecida como Dona Pomba, está profundamente ligada à história de um dos bairros mais tradicionais e musicais de Feira de Santana, a Rua Nova. Sua biografia transita entre relatos de profunda generosidade e análises acadêmicas que revelam um cenário complexo de relações de propriedade.
A ocupação da Fazenda São Gonçalo
Ernestina era dona de uma extensa área da antiga Fazenda São Gonçalo, onde a comunidade começou a se expandir no início da década de 1940. Nessa época, centenas de pessoas vindas da zona rural e de outras regiões da Bahia passaram a se estabelecer no local, buscando oportunidades de moradia e sobrevivência.
A memória coletiva construiu a imagem de uma figura extremamente bondosa, que doava lotes ou facilitava o pagamento para famílias de baixa renda. No entanto, pesquisas históricas apontam que o processo envolveu diferentes formas de acesso à terra, como vendas parceladas e aforamentos, demonstrando que a urbanização do local ocorreu por meio da resistência e do esforço coletivo de centenas de moradores.
Conflitos de terra e lutas por regularização
Após o falecimento de Dona Pomba na década de 1970, a segurança fundiária da comunidade passou por momentos de instabilidade. Pessoas que se apresentavam como herdeiras tentaram reaver judicialmente os terrenos, obrigando os moradores a se organizarem por meio de associações e ações coletivas para garantir o direito à moradia. Anos mais tarde, debates na Câmara Municipal continuaram a pautar a urgência da regularização dos imóveis na região.
Um celeiro cultural e musical
Além das discussões sobre a posse dos lotes, Dona Pomba também é lembrada por moradores mais antigos como uma mulher culta e receptiva. Com o passar dos anos, a localidade se consolidou como um polo de resistência e valorização da cultura afro-brasileira na Bahia.
O território revelou diversos nomes importantes da música, do samba e do reggae, além de abrigar manifestações religiosas e carnavalescas tradicionais. O impacto cultural do bairro foi reconhecido oficialmente quando a região se tornou patrimônio cultural de natureza imaterial.
As diferentes versões sobre a vida de Ernestina Carneiro mostram que sua figura não se resume a uma única narrativa. Entre controvérsias jurídicas, lembranças afetuosas e o desenvolvimento de uma forte identidade comunitária, a atuação de Dona Pomba marcou de forma definitiva o crescimento urbano e cultural de Feira de Santana.









