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Cientista baiana cria terapia com LED para saúde íntima

Baiana que enfrentou câncer de mama transformou experiência em tratamento para saúde íntima de mulheres

Os severos impactos da quimioterapia na região íntima feminina motivaram a fisioterapeuta e pesquisadora baiana Patrícia Lordêlo, de 49 anos, a transformar a própria batalha contra o câncer de mama em inovação médica. Ao vivenciar dores intensas e ferimentos na genitália durante as sessões oncológicas, a especialista ampliou estudos com fotobiomodulação por LED azul intravaginal e projetou um dispositivo inédito voltado ao uso doméstico.

Como o LED azul atua na recuperação dos tecidos

A tecnologia utiliza a fotobiomodulação para acelerar a regeneração celular, estimular a circulação sanguínea e ampliar a vascularização local. Essa abordagem surge como uma alternativa não hormonal fundamental para quem teve tumores mamários, cenário em que medicamentos costumam bloquear hormônios e inviabilizam o uso de estrogênio.

Com formato patenteado que lembra um guarda-chuva, o aparelho atua simultaneamente no canal interno e nos tecidos externos. “O LED tem efeitos no tecido que são regenerativos, de melhora da circulação, melhora da vascularização. Ele modifica esse tecido através dessa fotobiomodulação”, explicou a pesquisadora. Em detalhes práticos sobre o design, ela pontua: “Imagine um guarda-chuva, sendo que a parte redonda fica na parte externa e o cabo vai ser colocado no canal vaginal”.

Desde 2019, o grupo estuda a aplicação contra problemas pélvicos graves, como estenose vaginal, secura extrema e dor durante o ato sexual. Os dados clínicos com o modelo ambulatorial já demonstram avanços significativos. “Ambulatorialmente falando, nós temos resultados extremamente animadores. Melhora essa função sexual, melhora a lubrificação, essas mulheres se sentem mais acolhidas e com uma região muito mais favorável a ter a relação sexual”.

A dor como impulso para o tratamento em casa

Embora a cientista já liderasse testes com pacientes curadas, foi ao receber o próprio diagnóstico, em outubro de 2024, aos 47 anos, que ela constatou que as queixas surgem ainda durante a aplicação dos quimioterápicos. “Quando eu tive o câncer, começo a perceber que a quimioterapia leva a [outros] problemas durante a quimioterapia. Então, não é só após, com a falência hormonal que a gente tem pelos ovários”, relatou.

Durante essa fase, o simples ato de urinar provocava extremo sofrimento físico. “Eu sentia a região totalmente ferida em alguns momentos. Era muito doloroso”, relembrou Patrícia. A impossibilidade de se locomover nos dias mais críticos motivou a adaptação do método. “A maior dificuldade para mim era sair para fazer o tratamento. Eu sentia dores, era muito desconfortável. O pós-quimio é bem difícil. Nos primeiros cinco dias é o momento em que a gente se debilita mais”.

Diante do quadro, a pesquisadora formulou o novo desenho de estudo para avaliar o aparelho caseiro: “Como desenvolvi esse equipamento, disse: ‘Agora eu preciso testar clinicamente em mulheres utilizando o uso domiciliar e o uso ambulatorial em mulheres que estejam em tratamento’”.

Reconhecimento científico e ensaio clínico financiado

O projeto conquistou a renovação da bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em agosto de 2026. A etapa atual prevê a tramitação no comitê de ética em pesquisa para comparar a eficácia e segurança das versões ambulatorial e domiciliar. “Nós recebemos a aprovação da bolsa em agosto de 2026. A gente acaba tendo um intervalo para iniciar porque tem que aprovar o comitê de ética, tem todo um caminho antes de começar”, destacou a fisioterapeuta.

A linha de pesquisa já acumula premiações de peso: em 2022, em Viena, na Áustria, o trabalho recebeu o prêmio de melhor tratamento conservador durante o ICS Annual Meeting, evento promovido pela Sociedade Internacional de Continência, pelo manejo da Síndrome Geniturinária da Menopausa decorrente do tratamento contra o câncer.

Atualmente, o modelo ambulatorial já é empregado no Instituto Patrícia Lordêlo (IPL), em Salvador. A entidade filantrópica atende exclusivamente via Sistema Único de Saúde (SUS), prestando assistência a um contingente de 3 mil a 3,5 mil usuárias todo mês com disfunções pélvicas.

Do diagnóstico fulminante à autobiografia

O processo de descoberta da doença envolveu forte percepção pessoal da cientista, que procurou auxílio antes mesmo de alterações palparem. “Eu acordei e olhei para minha mãe e disse: ‘Olha, eu estou com câncer’”. Exames iniciais indicavam achados benignos, mas a confirmação se deu em 11 de outubro de 2024. “Mesmo tendo essa intuição de que eu estava com câncer, ler o resultado é muito difícil. Principalmente por ser da área, por conhecer os desafios”.

A agressividade da neoplasia surpreendeu os médicos: “No dia 11, quando eu fui examinada, não dava para palpar, não aparecia nos exames. No dia 24, ele já era visto a olho nu. Bastava levantar o braço, era uma bola na minha mama”. O tratamento exigiu mastectomia bilateral com reconstrução imediata e quimioterapia.

Essa jornada foi documentada na autobiografia “Inteira: Uma história real de corpo, intimidade, ciência, espiritualidade e reconstrução”, lançada no Gabinete Português de Leitura, em Salvador, com prefácio da atriz Regina Casé. Sobre o apoio recebido da artista, Patrícia recorda: “Ela me ajudou a voltar a me enxergar nesse lugar de profissional, porque eu estava num lugar muito de paciente”. Os direitos comerciais da obra serão integralmente doados para custear o atendimento do IPL pelo SUS.

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