Mensagens interceptadas de um grupo de WhatsApp revelam que membros da diretoria da Bamor celebraram agressões físicas e torturas cometidas contra vítimas na sede da torcida organizada, localizada no bairro de Nazaré, em Salvador. O material integra um relatório de análise de celulares apreendidos durante a Operação Inquisição, realizada no final de setembro, que resultou na prisão de dez pessoas, incluindo o presidente da entidade, Matheus Pires Castro.
Investigação detalha o caso De acordo com as autoridades, dois homens foram submetidos a espancamentos e sessões de tortura física e psicológica durante cerca de quatro horas nos dias 17 e 18 de julho. As vítimas foram atraídas ao local sob a acusação de supostas irregularidades financeiras. Em decorrência dos fatos, o Ministério Público da Bahia ofereceu denúncia contra os dez suspeitos por crimes que incluem tortura, organização criminosa, roubo, extorsão e ameaça.
Conversas e comemorações entre diretores O conteúdo extraído do grupo “Diretoria Bamor” expõe o grau de violência dos envolvidos. Em uma das conversas registradas no dia 18 de julho, o diretor de marketing Ricardo Henrique Almeida da Silva, conhecido como “Kakaroto Drt”, respondeu a um colega com a seguinte frase: “Só me arrependi de não bater mais. Mas um braço deixei quebrado.” Outros participantes do grupo também discutiram o uso de barras de ferro e mencionaram uma faca durante as ações violentas.
Orientações para ocultar responsabilidades No dia seguinte aos atos, o presidente da torcida, Matheus Pires Castro, enviou áudios determinando que qualquer ato de violência fosse atribuído coletivamente à diretoria, tentando blindar pessoas específicas de punições legais. Em uma das gravações, ele declarou: “‘Cê’ tem que falar que quem pegou foi a diretoria, não foi A, B, nem C, não. Teve facada? Teve. Quem foi que deu? A diretoria. Teve tiro? Teve. Quem deu? A diretoria. […] Tudo que a gente faz aqui é a diretoria. Não existe a pessoa física, não, entendeu?”
Ameaças de mutilação e novas agressões Nas mesmas mensagens enviadas em 19 de julho, Matheus Castro proferiu novas ameaças caso houvesse novos desvios financeiros na instituição, indicando punições ainda mais severas. Segundo o relatório, o dirigente afirmou: “Quem a gente pegar roubando agora vai ser pior do que foi com Binho. […] Se for preciso, a gente vai arrancar uma mão, vai arrancar um pé”. Ele ainda garantiu que a diretoria assumia integralmente as agressões cometidas.
Detalhes das chamadas para a violência Áudios anteriores já haviam revelado a convocação coordenada pelo presidente para as sessões de violência, nas quais ele tentava afastar aqueles que temiam consequências policiais. Em uma das gravações, Matheus afirmou: “Porra nenhuma, meu irmão, que nada. Vai dar porra nenhuma, irmão”. Em outro trecho, detalhou os planos para a vítima: “Amanhã é tirar a saúde dele. Vamos pegar até uns alicates para a gente arrancar as unhas dele”. Antes das agressões, ele também alertou os membros sobre o cenário que encontrariam: “Então, quem for amigo, quem ficar com pena, quem falar que pode dar merda porque a família pode correr atrás, que pode dar polícia, nem vá para a reunião. Deixa que quem quiser resolve, entendeu? Porque amanhã ele vai ter que sair com a mão esmagada para, de lá, ele fazer cirurgia. Tem que se foder e apanhar mesmo para servir de exemplo”.
Posição da defesa e réus na denúncia A defesa de Matheus Pires e do vice-presidente Luciano Venâncio declarou em nota “que seus clientes são inocentes” e que “todas as medidas judiciais já estão sendo adotadas”. Além dos dois dirigentes, a denúncia do Ministério Público alcança Gabriel Pereira Silva, Daniel Sena Duarte, Ricardo Henrique Almeida da Silva, Diego Allan Conceição Sacramento, Ivã Cleiton de Jesus Santos, Luiz Wagner da Silva Santana, Alan Rafael Regis Alves de Aquino e o policial militar Fernando Santana Esquivel.
A promotora de Justiça Thelma Leal destacou que todos os presos participaram ativamente dos episódios em diferentes proporções e ressaltou a expectativa de renovação na liderança da Bamor. Em nota oficial, a torcida organizada afirmou respeitar o trabalho das autoridades, defendeu que eventuais responsabilidades sejam apuradas de maneira individualizada e pontuou que não colabora com condutas ilícitas. A operação foi conduzida pelo Gaeco com apoio das polícias Civil e Militar e da Secretaria da Segurança Pública.









