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Presidente da Bamor orientou ocultar provas de tortura em Salvador

Integrante da Torcida Organizada do Bahia sugeriu apagar mensagens para evitar denúncia sobre sessões de tortura em Salvador

Investigações conduzidas pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) revelaram que membros da diretoria da Bamor, principal torcida organizada do Bahia, discutiram a exclusão de mensagens em aplicativos para ocultar evidências de sessões de tortura. Os crimes teriam ocorrido na sede da entidade, situada no bairro de Nazaré, na capital baiana, tendo como alvos dois homens convocados sob o pretexto de prestar esclarecimentos financeiros.

Detalhes da Operação Inquisição

As conversas vieram à tona após a Operação Inquisição, deflagrada no final de setembro, que resultou na detenção de 10 pessoas. Entre os alvos capturados estão o presidente da instituição, Matheus Pires Castro, e o vice-presidente, Luciano da Silva Venâncio.

De acordo com o material reunido pelos investigadores, as vítimas sofreram abusos físicos e psicológicos durante cerca de quatro horas em cada um dos episódios registrados nos dias 17 e 18 de julho. O órgão ministerial formalizou a denúncia contra o grupo em 2 de outubro por acusações que incluem organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça.

Tentativa de destruição de provas

O relatório aponta que o diretor de marketing da torcida, Ricardo Henrique Almeida da Silva, conhecido como “Kakaroto Drt”, sugeriu a eliminação do histórico de conversas em um grupo de WhatsApp composto por 19 participantes.

“Melhor apagar tudo essas por aí, viu? Essas paradas aí porque, querendo ou não, vai que essa desgraça denuncia aí, sei lá. […] Inclusive apagar esse grupo aqui as conversa”, afirmou o integrante em uma mensagem de áudio.

Em contrapartida, outros membros minimizaram os riscos de investigações. O diretor da sede, Daniel Sena Duarte, rejeitou a necessidade de apagar os registros ao justificar a violência cometida.

“Não tem negócio de prova não, mano, provar o quê, véi? A gente pegou ele ‘mermo’, mano, que ele é ladrão, ‘tava’ roubando a torcida, então a gente meteu a desgraça nele e já foi”, afirmou.

Instruções da presidência sobre a autoria

As evidências também mostram que a cúpula buscou padronizar os relatos para evitar a responsabilização individual dos envolvidos. Em áudios enviados no dia seguinte ao segundo ataque, o presidente Matheus Pires Castro determinou que os atos fossem atribuídos coletivamente à diretoria.

“Mas é isso, irmão, deixa eu te falar: ‘cê’ tem que falar que quem pegou foi a diretoria, não foi A, B, nem C, não. Teve facada? Teve. Quem foi que deu? A diretoria. Teve tiro? Teve. Quem deu? A diretoria. […] Tudo que a gente faz aqui é a diretoria. Não existe a pessoa física, não, entendeu?”, declarou o dirigente.

Ele acrescentou que a manutenção de uma versão única evitaria conflitos internos. “(…) Não é A, nem B. Porque isso aí que gera uma briga pessoal, isso aí que cria tumulto”, afirmou.

Ameaças e violência extrema

O conteúdo extraído dos celulares apreendidos também expõe relatos de agressões severas e ameaças de mutilação. Em uma das gravações, Ricardo Henrique comentou sobre o estado de uma das vítimas: “Só me arrependi de não bater mais. Mas um braço deixei quebrado”.

Por sua vez, o presidente da torcida advertiu que eventuais novos casos de desvios financeiros resultariam em punições ainda mais drásticas.

“Quem a gente pegar roubando agora vai ser pior do que foi com Binho. […] Se for preciso, a gente vai arrancar uma mão, vai arrancar um pé”, disse Matheus Castro, acrescentando que a vítima havia sido expulsa da entidade.

Em áudios de convocação para as reuniões violentas, o dirigente chegou a alertar sobre a intensidade do sangue no local.

“Então, quem for amigo, quem ficar com pena, quem falar que pode dar merda porque a família pode correr atrás, que pode dar polícia, nem vá para a reunião. Deixa que quem quiser resolve, entendeu? Porque amanhã ele vai ter que sair com a mão esmagada para, de lá, ele fazer cirurgia. Tem que se foder e apanhar mesmo para servir de exemplo”.

Posição da defesa e desdobramentos

Diante das acusações, a defesa responsável pelos interesses de Matheus Pires e Luciano Venâncio emitiu um posicionamento oficial sustentando “que seus clientes são inocentes” e assegurando que “todas as medidas judiciais já estão sendo adotadas”.

A promotora de Justiça Thelma Leal destacou que todos os capturados tiveram participação ativa nos atos de violência, ainda que em proporções distintas. A atuação do Ministério Público busca desarticular a estrutura criminosa e incentivar uma reformulação na liderança da Bamor para coibir novos episódios de violência na capital baiana.

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