As larvas de um molusco originário da Ásia vieram para o Brasil em navios cargueiros e agora se multiplicam de forma descontrolada pelos rios nacionais, representando uma ameaça severa para a infraestrutura energética e a biodiversidade aquática. O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) já se estabeleceu em regiões que vão da Amazônia até o Nordeste, construindo colônias tão espessas que conseguem bloquear tubulações e prejudicar sistemas de captação de água.
A dispersão geográfica ocorreu em um ritmo superior às previsões científicas. O invasor atingiu a Amazônia em 2023, intensificando o processo de colonização, com novos registros confirmados em trechos fluviais amazônicos e bacias nordestinas, demonstrando que a expansão continua em ritmo acelerado.
Origem na água de lastro e a chegada à América do Sul
Navios de grande porte utilizam água de lastro para preservar a estabilidade durante percursos transoceânicos, transportando microrganismos do porto de origem. A Argentina funcionou como porta de entrada sul-americana em 1991, após o descarte desse líquido em um habitat inédito e desprovido de predadores capazes de conter a população.
Durante os anos 1990, o molusco já integrava ecossistemas fluviais brasileiros, impulsionado pelo tráfego de embarcações e conexões entre bacias. O ciclo biológico do animal facilita esse deslocamento, uma vez que as larvas microscópicas são carregadas pelas correntes d’água. Em fases posteriores do desenvolvimento, o organismo adere de maneira definitiva a rochas, superfícies metálicas e cascos de embarcações, gerando colônias persistentes.
Reprodução sem controle biológico e altas densidades
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis atribui a rápida proliferação a dois aspectos principais: o elevado potencial reprodutivo e a falta de inimigos naturais no país. Sem barreiras ecológicas, os grupos populacionais aumentam de forma exponencial.
Um levantamento executado em outubro de 2024 e divulgado em dezembro de 2025 no periódico Acta Limnologica Brasiliensia registrou 15.849 indivíduos por metro quadrado em um setor do rio Tocantins, no Pará. A variedade de tamanhos comprovava que o processo reprodutivo já estava consolidado na área amazônica, originando sucessivas gerações locais.
Avanço territorial na Amazônia e em bacias nordestinas
Mapeamentos divulgados em 2026 uniram dados de expedições, relatos locais e registros anteriores para detalhar a disseminação. A presença do molusco foi atestada nos rios Tocantins e Pará, além da ilha de Marajó. No Nordeste, a bacia do rio Pajeú, em Pernambuco, também abriga o organismo, especificamente no reservatório Barra do Juá.
A identificação do invasor no rio São Francisco, em Minas Gerais, a aproximadamente mil quilômetros do registro anterior mais próximo, evidenciou uma capacidade de espalhamento maior do que se imaginava. Especialistas da Unimontes avaliam a possibilidade de embarcações de menor porte terem conduzido o animal entre locais isolados, superando obstáculos como barragens, embora essa tese ainda exija comprovação experimental.
Impactos financeiros e limitações no setor elétrico
Os procedimentos de higienização de estruturas, filtragem e tratamento de dutos demandam equipes dedicadas, desviando verbas que poderiam ser aplicadas na ampliação ou atualização da rede. Segundo o Ibama, os entupimentos podem gerar paralisações para limpeza e elevar os gastos operacionais.
A erradicação total da espécie em ambientes naturais já colonizados permanece impraticável com os recursos e tecnologias atuais. As ações viáveis restringem-se ao monitoramento constante, à contenção de novos focos e à mitigação localizada de danos em maquinários essenciais de usinas e sistemas de captação.
Perspectivas de controle e o papel das embarcações
Especialistas e administradores públicos apontam que a eliminação completa do mexilhão-dourado em rios e represas atingidos é inviável. O manejo eficiente restringe-se a construções humanas, a exemplo de dutos de hidrelétricas e redes de abastecimento, onde intervenções físicas e químicas conseguem conter o organismo, embora a custos elevados e recorrentes.
A respeito do transporte por barcos menores, a hipótese é tratada como provável pela comunidade científica, mas carece de validação em laboratório. O caso do rio São Francisco ilustra essa dúvida, sugerindo que embarcações possam ter trans transpositionado barreiras como a hidrelétrica de Sobradinho, mantendo-se, por ora, como uma explicação plausível e não como um fato definitivo.









