Movida pelo desejo de exercer sua cidadania e o direito de voto no segundo turno das eleições, uma professora universitária cruzou o Brasil de ponta a ponta. Saindo da região Norte, ela percorreu 3 mil km desde o Oiapoque, no Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa, até chegar a Alagoinhas, município baiano localizado a cerca de 79 km de Feira de Santana.
Logística desafiadora e dias na estrada O trajeto exigiu planejamento e resistência física, totalizando seis dias de deslocamento até o destino final.
Em entrevista, Daniele Barreto detalhou todo o percurso realizado:
“Sai de casa, na fronteira, no dia 18 de outubro às 21h. Peguei um ônibus e atravessei os 560 km, boa parte estrada de terra. Fiz a viagem durante a madrugada e cheguei em Macapá às 10 horas da manhã do dia 19. Existem poucos voos saindo de Macapá, então só consegui viajar 3h20 da manhã do dia 20 para Belém. De Belém para o aeroporto de Brasília. De Brasília para Salvador”, relatou.
O impacto da participação política A decisão de encarar a longa jornada veio após a educadora constatar que cada sufrágio possui peso decisivo na preservação do regime democrático, optando por não apenas justificar a ausência nas urnas.
“Eu poderia ter optado pela justificativa eleitoral, considerando a distância e a dificuldade do deslocamento. Mas decidi voltar à Bahia e votar presencialmente. Mesmo vivendo em uma região tão distante, a defesa à democracia exigia sacrifícios. E foi emocionante retornar para a casa onde vivi minha infância e adolescência, e que ingresei na política, na advocacia eleitoral e consultoria política. E mais de uma década sem morar nessa casa, me emocionou retornar para votar, para exercer o direito à cidadania, agora como professora e militante pela educação na Floresta Amazônica e pela democracia”, afirmou a docente.
Engajamento e motivação histórica A educadora também destacou que sua mobilização foi intensificada ao integrar o canal de mensagens voltado ao ativismo político, dedicando-se a debates sobre temas sociais sensíveis e buscando registrar um momento histórico na política latino-americana.
“Estimulada a gravar vídeos e debater os temas mais sensíveis para as mulheres e população indígena, resolvi que compraria uma passagem e viajaria. Vim para a Bahia votar em Lula. Também fui estimulada por ser provavelmente a última eleição de Lula. Queria ter a memória histórica de ter votado no maior líder da história da América Latina. Não votei no primeiro turno, porque achei que seria a eleição mais histórica, e que Lula venceria ainda no primeiro turno, e com larga diferença de votos. Levei um susto com a apuração e resultado do 1º turno. Por isso decidi votar no 2º turno, mesmo que demandasse alto custo financeiro e uma viagem cansativa de mais de 5 dias”, detalhou.
Atuação acadêmica e trajetória profissional Atualmente, Daniele leciona no Campus Binacional do Oiapoque, vinculado à Universidade Federal do Amapá (Unifap), situado em uma das zonas mais militarizadas e isoladas do território nacional.
“É o município que deu origem à expressão “Do Oiapoque ao Chuí”, sendo os dois pontos mais extremos ao norte e ao sul do país. Oiapoque fica a 560 km de Macapá, numa viagem que tem um trecho de terra, dentro da floresta fechada. Para chegar no Oiapoque, atravessamos por dentro de terras indígenas na BR-156, a obra pública em construção mais velha da história do Brasil”, explicou.
Com uma bagagem que inclui passagens pela advocacia eleitoral, consultorias, procuradoria municipal e atuação pioneira na internet como criadora de conteúdo político, a professora encerrou sua trajetória corporativa tradicional para focar na educação pública na região amazônica.
“Deixei a carreira que havia construído para assumir um concurso público como professora de Direito na Universidade Federal do Amapá, no Campus Binacional de Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa. Eu poderia ter continuado trabalhando com Direito e política na Bahia e em Brasília, mas quis experimentar outro caminho. Enxerguei na universidade pública a oportunidade de usar tudo o que havia aprendido na vida jurídica e política para contribuir com a formação de profissionais em uma região historicamente distante das oportunidades oferecidas nos grandes centros”, concluiu.









