O fim de um casamento após os 50 anos, amplamente conhecido como divórcio grisalho, tem transformado o cenário demográfico e social na Bahia. Dados recentes do IBGE mostram que 23,2% das separações registradas no estado em 2024 envolveram cônjuges nessa faixa etária, totalizando 6.328 dissoluções e um impressionante salto de 177% em um intervalo de 15 anos.
Impacto emocional e crise de identidade
Especialistas apontam que a dissolução conjugal na maturidade vai muito além da burocracia patrimonial, desencadeando um processo intenso de redescoberta pessoal. Para a psicoterapeuta Alice Lacerda, idealizadora do projeto Mulheres que Inspiram, o impacto da separação na maturidade vai muito além das questões patrimoniais. “O principal impacto do divórcio grisalho na vida das mulheres vai muito além da divisão de bens. Trata-se de uma profunda crise de identidade. Muitas vezes, o fim do casamento após os 50 ou 60 anos coincide com a menopausa e a síndrome do ninho vazio”, explica.
A profissional destaca ainda o peso cultural que muitas matronas carregam ao longo das décadas dedicadas ao núcleo familiar. “É uma mulher que passou a juventude dizendo sim para as demandas da família e não para si mesma e que, de repente, se vê diante da necessidade de reconstruir sua própria identidade”, alerta a especialista.
Crescimento expressivo nos números
O panorama baiano reflete uma tendência nacional verificada nas estatísticas oficiais do IBGE para o ano de 2024. No país, um em cada cinco divórcios ocorreu entre pessoas com 50 anos ou mais, atingindo a marca de 21,3%. Enquanto a Bahia registrou 23,2%, a capital Salvador alcançou 23,4% no mesmo período.
Em termos absolutos, o Brasil saltou de 33.081 separações desse grupo em 2009 para 91.386 em 2024. Na Bahia, o montante subiu de 2.283 para 6.328, ao passo que em Salvador o índice passou de 643 para 1.283 dissoluções no mesmo intervalo comparativo.
Autonomia e novas perspectivas
Para lidar com os desafios dessa transição, o fortalecimento de laços comunitários e a independência financeira tornam-se ferramentas fundamentais de superação. A psicoterapeuta atua diretamente com esse público em iniciativas voltadas para mulheres 50+, a exemplo do projeto Mulheres que Inspiram, Lar Harmonia, Casa de Oração Bezerra de Menezes e atividades escolares.
“O antídoto para essa dor é a sororidade e a autonomia. Desistir não é opção. O divórcio grisalho pode ser o encerramento de um longo ciclo, mas também o início da temporada mais livre e independente dessa mulher. Para isso, é preciso recriar pontes de amizade, cuidar da inteligência financeira e se permitir ser a atriz principal da própria história”, orienta.
O avanço na expectativa de vida também impulsiona essa nova mentalidade, fazendo com que a maturidade seja encarada como um momento propício para refazer planos e buscar novas vivências afetivas. Afinal, a idade avançada não deve representar anulação pessoal, mas sim a abertura para novos horizontes.
“Depois dos 50, ainda existe muito futuro pela frente. E essa mulher precisa se dar permissão para viver esse futuro com protagonismo, autonomia e felicidade”, conclui a especialista.









